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Autonomia e compartilhamento estão mais próximos da realidade das escolas

Junto com os amigos da comunidade REA Brasil, prof. Nelson Pretto e prof. Tel Amiel, participei da matéria do Instituto Claro sobre Educação Aberta e Recursos Educacionais Abertos, foco da segunda reportagem da série “Gerações Digitais”, veja abaixo.

A segunda reportagem da série Gerações Digitais aborda o conceito de Educação Aberta e os REAs, a partir da perspectiva de Débora Sebriam, professora especialista em tecnologias digitais e inovação pedagógica, e Nelson Pretto, professor e pesquisador da UFBA. A série Gerações Digitais vai ao ar a cada duas semanas e pretende registrar a trajetória das tecnologias digitais na educação nas últimas décadas, a partir de cinco temas-chave: Jogos (já publicada), Educação Aberta, Ativismo Digital, TICs na sala de aula e Mobile-Learning. Acompanhe e participe das dicussões!

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As tecnologias digitais vêm promovendo grandes mudanças na forma como as pessoas se informam e aprendem. No entanto, muitas destas mudanças não estão claras para professores e profissionais da área, que ainda apresentam dificuldades na hora de formular práticas pedagógicas para uma geração de alunos mais conectada e interativa.

Uma das novas práticas educacionais surgidas na última década é o conceito de Educação Aberta, que, para os mais radicais, se relaciona com a possibilidade de uma educação além da formal, que não depende do espaço escolar. Ou até com a substituição da escola tal como está constituída hoje, como provoca Nelson Pretto, doutor em educação e tecnologia e professor da UFBA. “Se pensarmos no formato tradicional das escolas, que só transmitem educação, as tecnologias digitais são mais efetivas”, afirma. No entanto, ele alerta: “Educação, porém, não é isso, não é transmissão de informação”.

Para Pretto, que possui um histórico de atuação com tecnologias na educação anterior à web 2.0-, as novas gerações se manifestam e produzem conhecimentos de maneira diferente. Atuando neste cenário há menos de dez anos, a educadora especializada em tecnologias digitais Débora Sebriam também acredita que uma grande transformação recente é o fato de que as pessoas passaram a produzir mais conteúdos e conhecimentos de forma colaborativa.

“A escola precisa se modificar. O esforço que tem que ser feito agora é o de transformá-la em um ecossistema pedagógico de produção de cultura e conhecimento. Para isso, é preciso uma mudança de currículo”, afirma Pretto.

Experiências colaborativas e abertas

Uma das formas de trabalhar o espírito colaborativo da cultura digital em sala de aula, tanto no que diz respeito aos recursos quanto à metodologia de utilização, é através dos Recursos Educacionais Abertos. Ou seja, fazendo uso de ferramentas que estão em domínio público ou licenciadas de maneira aberta e que podem ser utilizadas e/ou remixadas por terceiros. Confira mais detalhes sobre os REAs na apresentação abaixo, elaborada por Débora Sebriam e Priscila Gonsales para o Seminário Recursos Educacionais Abertos, que aconteceu em Porto Alegre no dia 12 de setembro, por iniciativa do Projeto REA Brasil, Instituto Educadigital e Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Débora Sebriam lembra que este movimento chegou no Brasil em 2008. Hoje, já existe uma comunidade que se organiza a partir do portal do REA e apoia projetos de disponibilização e produção de recursos abertos.

No entanto, os recursos educacionais abertos não fazem a diferença sozinhos. Para Tel Amiel, pesquisador do Nied/Unicamp e coordenador do grupo de trabalho Educação Aberta, o que importa são as práticas que podem ser modificadas em sala de aula e para além dela, através da discussão de questões como remixagem e propriedade intelectual, por exemplo. “Os REAs são uma maneira de o professor e o aluno pensar questões que a Cultura Digital impõe”, afirma.

Segundo Débora, as novas gerações já começam a ter mais autonomia para a busca e produção de conhecimento a partir da internet, apesar da “colagem” ser uma alternativa antiga. “O copiar e colar é uma prática anterior ao mundo online. As pessoas copiavam coisas da Enciclopédia Barça, por exemplo. A questão é: com vários trabalhos copiados e colados, sem citações de fonte, o professor precisa propor releituras e reflexões. O que se impõe é uma questão metodológica”, afirma.

Desafios para os próximos anos

Construir uma escola que explore melhor o conceito de colaboração é um desafio que esbarra em alguns obstáculos. Nelson Pretto aponta que os professores precisam receber formação para atuar de forma mais efetiva com as novas tecnologias. “Formação não são somente cursos. É plano de carreira, é infraestrutura nas escolas, constante atualização e valorização da prática docente”, afirma.

Pouco a pouco, os REAs começam a aparecer como foco de políticas públicas. Débora lembra que, em São Paulo, os materiais educacionais municipais já são todos REA, a partir da aprovação do Decreto Municipal nº 52.681, de 26 de setembro de 2011. Além disso, há projetos de lei para ampliar o alcance dos REAs tramitando no Senado e no Estado de São Paulo. Detalhes sobre o projeto vão ser discutidos no VI Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, que acontecerá no dia 9 de outubro, em Curitiba. “É importante transformar esta adoção em lei, para evitar retrocessos com troca de governos, por exemplo”, afirma a educadora.

A materialização dos REAs nas escolas brasileiras ainda depende de investimentos, mas será um caminho sem volta, na opinião de Débora. “Esta discussão só vai ganhar força nos próximos anos, principalmente porque envolve dinheiro público. Se é a sociedade que está financiando os materiais, eles devem poder voltar para a sociedade depois”, finaliza.

Fonte: Instituto Claro

Entrevista sobre Recursos Educacionais Abertos (REA)

Entrevista ao Jornal Tribuna do Planalto – Ano 26 – Nº1.345 –  Goiânia, 16 a 22 de setembro  de 2012

 

O nome é novo e ainda desconhecido: Recursos Educacionais Abertos ou somente REA. “São materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão em domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros.” Quem explica é Débora Sebriam, uma das responsáveis pela difusão da proposta no Brasil.

A equipe do Caderno Escola a procurou para tirar dúvidas sobre o assunto e explicar o que isso tem a ver com a sala de aula. Débora é educadora e faz parte da equipe do Projeto Recursos Educacionais Abertos Brasil (REA-Brasil). Ela é mestre em Engenharia de Mídias para a Edu­cação pelas Universidades Técnica de Lis­boa, de Poitiers e Nacional de Educação à Distância de Madri.

As discussões sobre o tema estão florescendo. No início de março, foi realizada a primeira Semana Mundial da Educação Aberta. Mas o tema ganhou mais espaço na mídia brasileira a partir do final do mesmo mês, quando o Rio de Janeiro recebeu o Fórum Regional REA – América Latina, evento realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Um de seus objetivos foi a elaboração de uma declaração que será apresentada no Congresso Mundial sobre Recursos Educacionais Abertos, a ser realizado em Paris, em junho. O assunto é internacional, mas pode se encaixar em qualquer sala de aula. Débora explica que os REA podem tornar todos os atores da educação ativos disseminadores e construtores do conhecimento.

“A autoria individual e colaborativa pode ser potencializada quando professores e alunos criam e publicam suas obras criativas, dando possibilidade para que outras pessoas possam adotar e /ou adaptar os materiais criados”, afirma. Por e-mail, ela respondeu algumas questões sobre o tema.

O que são, exatamente, os Recursos Educacionais Abertos? Quais são as possibilidades deles para o ensino?

Recursos Educacionais Abertos são materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão em domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros. Incluem livros, planos de aula, softwares, jogos, resenhas, trabalhos escolares, vídeos, áudios, imagens e outros.

As possibilidades são inúmeras se partirmos da compreensão de REA como bens educacionais essenciais ao usufruto do direito de acesso à educação e à cultura. Eles podem facilitar o acesso ao conhecimento das pessoas que estão nas escolas e universidades e das que estão fora delas; incentivar práticas de colaboração, participação ativa da comunidade e compartilhamento.

É também uma forma de ter melhor aproveitados os investimentos públicos investidos em material didático. Os REA garantem liberdade, inovação metodológica e criatividade de produção, além de ser uma maneira de valorizar e reconhecer o professor como autor.

Qual a aplicabilidade deles para a Educação Básica?
Para a Educação Básica, os REA podem ser adotados como política educacional. Isso poderia ser feito em várias frentes, por exemplo, com a adoção preferencial por softwares livres, incentivo ao uso e à publicação de recursos educacionais com licenças abertas.

Para professores e alunos, abre-se a possibilidade de uso, redistribuição, remix de conteúdo aberto. A autoria individual e colaborativa pode ser potencializada quando professores e alunos produzem e publicam suas obras criativas, dando possibilidade para que outras pessoas possam adotar e /ou adaptar os materiais criados.

Para todos os atores implicados na educação, os REA podem torná-los ativos disseminadores e construtores colaborativos do conhecimento. Especifi­camente, esses recursos também potencializam metodologias educacionais que envolvem a solução de problemas, o construtivismo e o aprendizado individualizado. Isso porque as licenças abertas permitem que aquele material educacional seja moldado não só a necessidades regionais, mas também a necessidades individuais.

Os REA, além de poderem ser o elemento essencial do currículo, podem formar uma base gigantesca de recursos complementares para aqueles alunos que precisam de reforço escolar ou que aprendem melhor por meio das tecnologias, games ou exercícios interativos. Outro ponto são as inovações que a metodologia REA trouxe para crianças e adolescentes na maneira como interagem com livros didáticos. Nesse caso, chamamos de livros didáticos abertos (do inglês Open Textbooks). Esses livros permitem grande interação do indivíduo com o livro e com comunidades de prática que surgem ao redor daquele livro. Aqui você não só colabora com alunos de sua classe ou escola, mas com alunos do mundo inteiro que adotaram aquele livro didático.

Será preciso uma formação específica de professores para o uso dos REA?
Certamente os professores têm condições de ensinar e aprender com REA! Hoje, temos um professor que integra diferentes mídias no processo pedagógico. No contexto da cultura digital e da Sociedade da Informação, o professor já faz uso de muitos materiais compartilhados na internet e também compartilha seus materiais e experiências.

REA seriam um complemento para uma formação que já caminha com pernas próprias e que enfoca novos contextos de mediação em sala de aula. Os recursos educacionais abertos são baseados nos princípios de conteúdos de aprendizagem, ferramentas de criação e propriedade intelectual. Os professores já dominam ou estão a caminho de dominar pelo menos dois princípios (conteúdos e ferramentas de criação que podem incluir mídias digitais), falta uma discussão sobre propriedade intelectual.

Um entendimento sobre licenças abertas facilita a utilização de material e abre portas para que professores autores decidam como suas obras criativas podem ser usadas por outros, sem necessidade de intermediários. E também pode contribuir para que a escola saia da sombra da pirataria e gere uma conduta mais ética em relação à pesquisa e à produção de trabalhos de professores e alunos.

Os Recursos Educacionais Abertos podem abrir portas para que professores de todo o lugar do Brasil se tornem autores. E, quem sabe, tornem-se autores que tenham suas obras e trabalhos adotados em outras regiões.

Como teve início e se desenvolve hoje o Projeto REA-Brasil?
O Projeto REA-Brasil foi fundado em 2008 por Carolina Rossini e as atividades do projeto tiveram início com a visita de uma delegação internacional de experts e desenvolvedores de REA ao Ministério da Educação e com a realização de uma série de eventos de sensibilização em São Paulo e Brasília.

Esse projeto é um dos primeiros projetos no Brasil que tentam apropriar à realidade e às perspectivas brasileiras a discussão internacional acerca de REA e da Educação Aberta. Desde então, uma comunidade ativa de mais de 300 pessoas voluntárias ajudam a consolidar a discussão sobre REA no Brasil.

Atualmente, o Projeto REA-Brasil mantém relação e oferece suporte a diversos governos e instituições brasileiras e internacionais, incentivando ações. Atuamos colaborando com colégios, secretarias municipais de educação e até mesmo com as câmaras estadual e federal de deputados. Ajudamos a organizar e participamos de eventos, conferências, palestras e atividades educativas sobre REA no Brasil.

Em eventos internacionais, mantemos conversas com algumas editoras sobre novos modelos de negócio alternativos que gerem livros didáticos abertos ou versões digitais mais acessíveis e abertas em diferentes formatos. Também participamos ativamente da construção de políticas e leis que incentivam a adoção de REA.

Quais entraves os REA ainda encontram no Brasil para se popularizarem em políticas educacionais?
O conceito REA é novo não só no Brasil e ainda há muito por fazer. Há necessidade de um grande trabalho em cultura institucional para que a cultura colaborativa e de compartilhamento por meio da internet e dos REA seja vista como algo positivo e que tira nossos professores da sombra da “pirataria”.

Muitas vezes projetos têm como objetivo gerar recursos livres e práticas colaborativas, como é o caso do Portal do Professor do MEC [Ministério da Educação], mas acabam falhando na adoção de políticas claras de como os usuários podem, de fato, utilizar e apropriar-se de tais materiais. Ademais, no Brasil, as editoras possuem grande poder econômico, político e de mídia, como vemos há alguns anos ao redor do debate das cópias dos livros e da reforma de lei de direito autoral.

Tais atores econômicos ainda têm muito receio em relação à sustentabilidade de práticas REA e como tais práticas vão afetar seu poder de mercado. Por isso, nós do Projeto REA também tentamos estudar e gerar conhecimento sobre novos modelos de negócio que podem gerar sustentabilidade para as editoras.

Por fim, o governo brasileiro, diferente de outros, como o dos EUA ou da África do Sul (este último acabou de adotar livros didáticos abertos para todas as suas escolas da rede pública), ainda está longe desse debate. No Brasil, as práticas REA têm surgido de indivíduos que levam suas ideias para suas instituições, que reconhecem REA como parte de sua função social de geração e publicação de conhecimento e pesquisa.

Link original: Tribuna do Planalto

Entrevista ao Zuggi

Compartilho com vocês entrevista dada ao blog Zuggi e como sempre estou aberta a sugestões e críticas 🙂

Parte 1 – falo sobre tablets, segurança na internet e Recursos Educacionais Abertos.

1) Como as novas tecnologias podem contribuir para a educação dos alunos?

A tecnologia sozinha não muda nada. Sem mudarmos o modelo autoritário e unilateral que perdura há tempos na educação, o que ocorrerá é uma extensão do meio tradicional de ensino também para o “meio tecnológico”. Temos que ter em mente que a tecnologia potencializa as relações humanas e as trocas advindas desta relação é que gera o conhecimento e não propriamente o uso de uma tecnologia específica.

A educação é (ou deveria ser) um processo que dura toda a vida e não somente os anos obrigatórios de escola. A tecnologia na escola permite fazer essa ponte, trabalhar com os conteúdos de forma mais dinâmica, gerar o protagonismo dos alunos, possibilitando a interação entre eles e professores dentro e fora dos muros da escola, dando significados reais ao cotidiano e não somente para um fim específico que “morre” ao término do trabalho.

2) Sabemos dos perigos da internet para a formação e informação dos alunos. Quais cuidados um professor deve ter para utilizá-la em sala de aula?

Este é um tema super importante e muitas vezes esquecido ou simplesmente ignorado pelas escolas, acredito que isto ocorre devido a falta de informação e de um consenso sobre de quem é este papel, família ou escola? Eu diria que a responsabilidade é de todos. Acho que o tema sobre uso seguro da internet e telas digitais deveria ter lugar privilegiado nas instituições de ensino, assim como, penso que as famílias têm que despertar para a importância de orientar seus filhos e não transferir a responsabilidade toda para a escola. Mas como educar para o bom uso das telas digitais quando não sabemos como intervir, seja por falta de formação ou conhecimento sobre o assunto? Vou tentar dar algumas dicas baseada na minha experiência.

Atualmente, desenvolvo no Centro Educacional Pioneiro o projeto Comportamento, Segurança e Ética na Internet. Este projeto teve início em abril de 2011 e está estruturado em 3 fases:

  • Fase 1: sensibilização (debates com alunos, professores e pais)
  • Fase 2: produção de conteúdo (alunos autores criarão cartazes, folders, blogs, vídeos, sites e todo tipo de mídia da ESCOLHA DELES)
  • Fase 3: disseminação (estamos estudando licenciar todo material em Creative Commons e compartilhar na rede)

Nós completamos a fase 1 este ano, integrando e chamando a participação toda a comunidade escolar: alunos, professores e famílias! Esta fase se baseou no debate, eu trouxe exemplos e questões norteadoras adequadas a cada faixa etária, nesta fase todos tinham o direito a palavra, a esboçar suas opiniões, o conhecimento foi construído colaborativamente. Vejam que é muito diferente de dar uma palestra, nosso processo não é unilateral e nem centralizador, ele é baseado no grupo e no compartilhamento!

Nestas dinâmicas que chegaram a durar 3 horas seguidas sem que ninguém sequer esboçasse vontade de ir embora, nós falamos sobre alguns temas gerais como:

  • Compartilhamento de dados pessoais,
  • Privacidade,
  • Mundo real x mundo virtual,
  • Comportamento nas redes sociais,
  • Compartilhamento de imagens e vídeos,
  • Videogames e games online,
  • SMS,
  • Sexting,
  • Uso da Webcam,
  • Ciberbullying,
  • Cidadania online.

Para introduzir todos estes assuntos pesquisei os “memes” e “virais” que os alunos tanto falam pelos corredores, editei um vídeo com as pessoas (crianças, adolescentes e adultos) que caíram nas redes por descuido ou vontade própria e trabalhamos com exemplos práticos que ocorreram nas redes sociais e que são conhecidos de todo adolescente conectado. Fizemos o exercício de nos colocar no lugar do outro e pensar sobre nossos sentimentos em relação às situações abordadas para trabalhar questões como respeito, ética e solidariedade, assim como falamos das vantagens e perigos ocultos nas interfaces e ferramentas mais usadas por eles.

Para chegar a este modelo consultei materiais pré-fabricados que trazem informações gerais e que aconselho a todos que precisam de informações iniciais sobre o assunto, como:

Cartilha da Safernet: http://www.safernet.org.br/site/prevencao/cartilha/safer-dicas

Internet Responsável: http://www.internetresponsavel.com.br

Cartilha da OAB: http://www.oabsp.org.br/comissoes2010/crimes-alta-tecnologia/cartilhas

Criança mais Segura: http://www.criancamaissegura.com.br/cartilhas.php

Proyecto Centinela: http://www.proyectocentinela.com/

Pantallas Amigas: http://www.pantallasamigas.net/

Acho que não existe receita de bolo, faça uma pesquisa inicial com seus alunos, descubra as redes e ferramentas que usam e participam, descubra com eles o que é assunto no momento e porque eles se interessam por eles, trace o perfil sobre quem é seu aluno no mundo digital e o que eles consomem e produzem, integre-se! Acho que este é o melhor ponto de partida.

3) Já existem escolas nos EUA que aboliram os livros didáticos, ou melhor, colocaram todos eles nos tablets  dos alunos. Você acredita que isso se tornará uma tendência aqui no Brasil também? Os livros de papel se tornarão peças de museus?

Essa parece ser uma tendência não somente para o Brasil, mas para a grande parte dos países. A Índia, por exemplo, anunciou há algumas semanas tablets muito baratos para serem distribuídos nas suas escolas, já no Brasil, o governo prometeu isenções fiscais significativas para facilitar o acesso. Apesar de facilidades de acesso estarem em prioridade, quando se trata de livro didático acredito que no Brasil as duas versões vão coexistir por muito tempo ainda, nós ainda “precisamos” do papel.

Uma questão importante também quando pensamos em livro é pensar na produção destes materiais. As grandes editoras brasileiras estão trabalhando para oferecer versões digitais com alguns recursos adicionais de seus livros impressos, mas pelo menos por enquanto, não sinto que estão descartando a venda de material impresso.

Outro ponto importante é que não deveríamos ser meros consumidores de material didático, eu acredito e aposto na produção colaborativa de professores e alunos. Imagine escolas que compartilham e remixam seus próprios materiais educacionais para atender suas demandas internas e regionalidades, fortalecendo o acesso e a distribuição do conhecimento e da cultura livre? Estou falando aqui da filosofia dos Recursos Educacionais Abertos, que são basicamente quaisquer materiais educacionais que possam ser alterados, remixados e compartilhados livremente por qualquer pessoa, incluindo professores e alunos, que podem deixar de ser meros consumidores de informação para se tornarem autores e contribuidores na produção e disseminação do conhecimento.

Parte 2 – falo sobre meu “modelo ideal” de escola e como é possível implementar as novas tecnologias dentro da sala de aula com a ajuda dos próprios alunos.

1) Você acha que um professor que hoje em dia não utiliza a internet em sua metodologia de ensino está defasado em relação aos outros?

Eu acredito que não usar tecnologia como meio pedagógico é estar ignorando o mundo como ele é fora dos muros da escola! Pensemos nas nossas ações, no nosso trabalho, a forma como pagamos nossas contas e fazemos compras, nas novas formas de comunicação, todas essas pequenas ações são mediadas pela internet e por diferentes telas digitais (computadores, celulares, videogames, tablets). Para muitas crianças, a escola é o local onde dão seus primeiros passos no mundo digital e a habilidade de entender e usar a internet também como meio de aprender e compartilhar é essencial em tempos de cultura digital. Eu concordo com o argumento que em nível de políticas públicas efetivas para a educação e o provimento de educação continuada é ineficiente, de fato. A formação para uso de tecnologia na escola está longe do ideal, mas não podemos nos esconder atrás do rótulo: “estão me obrigando a usar tecnologia na escola e eu não tenho nada com isso”. Não é só o professor que tem novas demandas no trabalho, o caixa do supermercado, o bancário, o atendente da padaria, todas as classes trabalhadoras têm novas exigências em relação ao trabalho e a adoção de tecnologia.

2) Como seria, em sua opinião, o modelo ideal de escola e ensino?

Não existe (ou não deveria existir) receita de bolo, vivemos em um país de proporções continentais e as regionalidades e limitações de cada local devem ser levadas em conta e superadas.

Acredito em alguns pontos básicos que poderíamos chamar de “diretriz comum”. A escola ideal pra mim é aquela que valoriza seu aluno como protagonista, é a escola em que o professor não é mais o centro do conhecimento, é a escola em que professores e alunos são parceiros na construção da aprendizagem, a responsabilidade é compartilhada e todos encontram seu papel.

3) Para as escolas que ainda não introduziram as ferramentas tecnológicas em seus programas pedagógicos, quais seriam os primeiros passos para que elas comecem a utilizar tecnologia para o aprendizado de seus alunos?

Existe uma diferença enorme entre ter tecnologia na escola e usar tecnologia na escola como meio pedagógico. O simples uso de tecnologia sem mudanças metodológicas não resultará em inovação e pouco vai adicionar ao processo de aprendizado.

Muitas vezes reclamamos que na nossa escola não temos apoio técnico, que é difícil “domar” a máquina, mas acredito que é preciso ter em mente que a escola está cheia de “experts”, que sabem resolver alguns problemas ou que se sentiriam extremamente desafiados a buscar soluções: seus alunos! Mais uma vez retornamos à ideia de alunos e professores trabalhando juntos na resolução de desafios, na construção do conhecimento e na participação ativa no processo educativo.

Também já comentamos que nem sempre recebemos formação continuada para nos aventurarmos por campos desconhecidos, como o uso pedagógico das novas tecnologias e das telas digitais. Existe solução? Existe!

Os novos processos comunicacionais e o aprendizado descentralizado que a internet proporciona pode ajudar você, professor, e tomar pouco tempo da sua rotina diária! Você ainda pode não ser um especialista na inovação de seus processos metodológicos com uso de tecnologia, mas pense bem, você certamente é um usuário. Provavelmente você tem e-mail, já viu ou pesquisou um vídeo no Youtube, usa algum comunicador instantâneo para falar com seus parentes e/ou amigos distantes, participa de alguma rede de relacionamento como Orkut ou Facebook. Todas estas redes são habitadas também por outros educadores que tentam tirar proveito delas para aprender e também ensinar. Estes educadores compartilham em rede seus acertos e erros e colaborativamente buscam melhorar. Experimente fazer parte destes grupos de pessoas que vêm de todos os cantos do país, vou citar algumas boas possibilidades das quais participo:

  • Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital: já reúne mais de 2000 educadores que aprendem em rede, formando um verdadeiro coletivo virtual de educadores. Você pode participar pelo ambiente interativo do grupo, pelo Twitter, Youtube e Orkut.
  • No Facebook existem grupos fantásticos e super ativos que discutem tecnologia e educação como: A Cultura Digital e a Formação de Professores, Recursos Educacionais Abertos, Filtros Educação & Aprendizagem XXI, entre outros.
  • No Twitter você pode seguir hashtags como #ECDigital, #eadsunday, #culturadigital #reabr
  • Portal Educarede Brasil: você encontra uma infinidade de exemplos de projetos bem sucedidos desenvolvidos por professores como você, além de uma vasta biblioteca de recursos que podem ajudar a sua aula e também oferta de cursos online.

Os professores e escolas não estão sozinhos nesta caminhada, além destes espaços existem inúmeros outros que você vai descobrindo conforme navega e conforme se relaciona com seus pares.

Entrevista ao Utilizando Mídias na Educação

Compartilho aqui uma entrevista que dei ao blog Utilizando Mídias na Educação, a pedido da minha querida amiga Fernanda Tardin.

Sugestões, comentários e críticas construtivas são sempre bem-vindas 🙂

Fernanda Tardin: Sabemos que a simples utilização da Tecnologia na Educação sem mudanças inovadoras na metodologia, não trará mudanças significativas ao aprendizado. O que diria aos professores nesse sentido?

Débora Sebriam: É fato que os tempos mudaram, a tecnologia está incorporada na vida das pessoas. Todos fomos “obrigados” a nos adaptar as novas demandas e com a educação não deve (ou não deveria) ser diferente. É importante ter em mente que uma aula tradicional tendo a tecnologia como meio dificilmente despertará o interesse e engajamento dos alunos. Diria aos professores para se desapegarem de velhas práticas e focarem na produção, trabalhar na perspectiva do aluno como autor. Estar atento as mídias que os alunos tem acesso e estão inseridos é um bom começo. À partir do momento que os alunos tem um problema para resolver em equipe, o processo é significativo e o engajamento é natural. Desta forma, saímos do velho esquema de centralização no professor e o foco passa a ser o aluno. Professores e alunos devem ser parceiros da aprendizagem!

Fernanda Tardin: “Redes Sociais são utilizadas como estratégia de ensino por professores.” O que pensa a respeito? As chamadas redes sociais tem se mostrado espaços de grande potencial pedagógico.
Débora Sebriam: Temos vários exemplos no ensino superior do uso das redes sociais como mais um espaço educativo que dá certo! Podemos citar o exemplo da universidade que ofertou um curso inteiro pelo Facebook, ou o caso do professor que usou o Twitter para driblar a greve na universidade, onde todos estavam impedidos de acessar o campus. Estes exemplos se tornam escassos quando pensamos no ensino básico. No caso particular da Educação Básica, sabemos que as crianças e adolescentes cada vez mais cedo ocupam estes espaços, e também sabemos que o objetivo principal deles ao fazer parte destas redes é o relacionamento  e o lazer. Propor atividades pedagógicas dentro de um espaço que é uma linguagem natural destes jovens pode ser muito interessante, mas acho que algumas precauções devem ser tomadas:
  • É importante decidir junto com os alunos a proposta, eles devem se sentir integrados, confortáveis e desafiados a experimentar novas formas de aprender.
  • Outra questão, é não esquecermos que somos escola, e portanto, acho importante respeitarmos a idade mínima de classificação para o acesso as redes. Uma coisa é uma criança menor de 13 anos ter o consentimento dos pais para usar espaços como Orkut e Facebook, outra coisa é a escola, enquanto instituição, ignorar estas regras.
  •  Aconselho a todos os professores que decidirem se aventurar por esses novos campos de experimentação pedagógica criar um perfil “profissional”, ou seja, um perfil específico para atuar com os alunos neste espaço, particularmente, sou contra misturar o perfil pessoal do professor com os alunos nas redes sociais. Imagine seus alunos adolescentes comentando suas fotos da praia, das festas que você frequenta? As pessoas tem uma certa tendência de divulgar muitas informações pessoais e privadas nas redes sociais e qualquer descuido pode gerar um enorme desconforto.
  • É a primeira vez que sua turma vai usar redes sociais para aprender? Vejo aqui uma excelente oportunidade para se introduzir trabalho com  exemplos de bons e maus usos das redes. Faça uma pesquisa e veja o que já foi realizado com a rede que você escolheu, selecione os bons exemplos, como campanhas de doação de sangue, campanhas contra a corrupção, exemplos de uso pedagógico e também apresente “casos”  do mau uso das redes e suas consequências. Todos os dias temos novas notícias de pessoas que extrapolaram o bom senso, que ofenderam outras pessoas, que incitaram o ódio, etc. Trabalhar o uso seguro das telas digitais cabe em toda e qualquer disciplina do currrículo escolar. Tenho trabalhado com meus alunos usando esta dinâmica e os resultados são muito motivadores, eles se interessam, tem oportunidade de falar, de refletir e de debater com seus iguais. Aqui eles estabelecem as regras!
Sei que estou parecendo pessimista, mas não é nada disso! Acredito que as redes sociais são espaços dinâmicos e propícios para o desenvolvimento de atividades pedagógicas. Acho que temos um campo aberto para experimentar, errar, trabalhar o erro, acertar e compartilhar estas experiências.

Fernanda Tardin: Muitas pessoas associam o uso de jogos educativos e outros recursos midiáticos a “bagunça”, “falta de conteúdo”, “brincadeira”, “irresponsabilidade”.  Quais as suas ponderações sobre a questão?
Débora Sebriam: Este é um mito que acredito estar sendo quebrado, entretanto, muitas pessoas pensam assim e se analisarmos mais profundamente, a escola tem como triste histórico separar a aprendizagem do prazer! É fato que muitos pais e professores tem em mente que os games são mero passatempo, que servem para ocupar tempo livre e alguns os veem como catalisadores de violência.
Façamos uma analogia, os jogos tradicionais e os games eletrônicos são construídos com os mesmos elementos estruturais (cenários, estratégia, regras, objetivos, etc), entretanto, as brinquedotecas são bem aceitas e apreciadas dentro de uma instituição escolar, já os games eletrônicos é outro departamento. Agora pense na cultura digital e a grande barreira ainda existente para entrada de tecnologia na escola. Pensou? Pois então, acho que estes conceitos estão interligados, mas é pura opinião pessoal.
Na minha opinião, os games, sejam eles classificados como educativos ou não, tem grande potencial pedagógico, mesmo aqueles que apresentam cenas fortes de violência, o que importa é sua proposta de uso. Evidentemente, ao escolher um game para desenvolver uma atividade pedagógica, é preciso ter claro quais os objetivos a serem atingidos, qual o tipo de avaliação que será empregada e se o conteúdo do game é adequado a idade da sua turma. Um game pode ser usado de diversas formas, você pode fechar um conteúdo específico como forma de feedback, é possível também iniciar e desenvolver todo um assunto com um game ou vários games intercalados, tudo depende do seu planejamento.
Os games oferecem como vantagem o engajamento natural dos alunos com este tipo de interface, promovem improvisação e descoberta, desafio, o desenvolvimento de estratégias, interação, participação, colaboração, aprendizagem com o erro, aprendizagem lúdica, imersão.É importante ter em mente que os games são narrativas exploradas pela maioria das crianças e adolescentes e isso se dá independente de nível sócio-ecônomico! Você não joga somente usando os famosos (e caros) consoles ou os vídeogames portáteis. É possível jogar online no seu computador, nos tablets e também pelos celulares/smartphones. Notem que quando pensamos em games temos a opção de jogar em diferentes telas digitais e pelo menos uma delas o brasileiro possui em larga escala e cada vez mais cedo, falamos aqui dos celulares! Vejo uma gama enorme de possibilidades educacionais.
Fernanda Tardin: Quais as características essenciais de um professor de sucesso, nos dias atuais?
Débora Sebriam: Eu acho que o professor de sucesso é aquele que se considera e age como eterno aprendiz! Foi-se o tempo em que o professor era a fonte de conhecimento e informações. Atualmente, nós temos novos desafios e na minha opinião um novo papel social.

Fernanda Tardin: Em sua opinião quais as principais orientações que os estudantes precisam receber, dos professores e responsáveis, em relação a sua segurança na internet?
Débora Sebriam: Este é um tema super importante e muitas vezes esquecido ou simplesmente ignorado pelas escolas. Acho que este tema deveria ter lugar privilegiado nas instituições de ensino, assim como, penso que as famílias têm que despertar para a importância de orientar seus filhos e não transferir a responsabilidade toda para a escola. Mas como educar para o bom uso das telas digitais quando não sabemos como intervir, seja por falta de formação ou conhecimento sobre o assunto? Vou tentar dar algumas dicas baseada na minha experiência.
Atualmente, desenvolvo no Centro Educacional Pioneiro (escola particular de São Paulo) o projeto Comportamento, Segurança e Ética na Internet. Este projeto teve início em abril de 2011 e está estruturado em 3 fases:
  • Fase 1: sensibilização (debates com alunos, professores e pais)
  • Fase 2: produção de conteúdo (alunos autores criarão cartazes, folders, blogs, vídeos, sites e todo tipo de mídia da ESCOLHA DELES sobre o assunto)
  • Fase 3: disseminação (estamos estudando licenciar todo material em Creative Commons e compartilhar na rede)
Nós completamos a fase 1 este ano, integrando e chamando a participação toda a comunidade escolar: alunos, professores e famílias! Esta fase se baseou no debate, eu trouxe exemplos e questões norteadoras adequadas a cada faixa etária, nesta fase todos tinham o direito a palavra, a esboçar suas opiniões, o conhecimento foi construído colaborativamente. Vejam que é muito diferente de dar uma palestra, nosso processo não é unilateral e nem centralizador, ele é baseado no grupo e no compartilhamento!
Nestas dinâmicas que chegaram a durar 3 horas seguidas sem que ninguém sequer esboçasse vontade de ir embora, nós falamos sobre alguns temas gerais como:
  • Compartilhamento de dados pessoais,
  • Privacidade,
  • Mundo real x mundo virtual,
  • Comportamento nas redes sociais,
  • Compartilhamento de imagens e vídeos,
  • Videogames e games online,
  • SMS,
  • Sexting,
  • Uso da Webcam,
  • Ciberbullying,
  • Cidadania online.
Para introduzir todos estes assuntos trabalhei com a linguagem dos alunos: o Internetês. Pesquisei os “memes” e “virais” que os alunos tanto falam pelos corredores, editei um vídeo com as pessoas (crianças, adolescentes e adultos) que cairam nas redes por descuido ou vontade própria e trabalhamos com exemplos práticos que ocorreram nas redes socias e conhecidos de todo adolescente conectado. Fizemos o exercício de nos colocar no lugar do outro e pensar sobre nossos sentimentos em relação as situações abordadas para trabalhar questões como respeito, ética e solidariedade, assim como, falamos das vantagens e perigos ocultos nas interfaces e ferramentas mais usadas por eles. Também consultei profissionais ligados a segurança da informação e advogados para tabalhar desde o ponto de vistas das leis, todo esse contato se deu de forma voluntária através das redes sociais, mas sempre integrado aos exemplos práticos trabalhados com os alunos, professores e pais.
Para chegar a este modelo consultei materiais pré-fabricados que trazem informações gerais e que aconselho a todos que precisam de informações iniciais sobre o assunto, como:
Acho que não existe receita de bolo, faça uma pesquisa inicial com seus alunos, descubra as redes e ferramentas que usam e participam, descubra com eles o que é assunto no momento e porque eles se interessam por eles, trace o perfil sobre quem é seu aluno no mundo digital e o que eles consomem e produzem, integre-se! Acho que este é o melhor ponto de partida.


Fernanda Tardin: Fale um pouco sobre seu envolvimento com o Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital.

Débora Sebriam: Considero o Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital um marco na minha carreira e na minha vida. Eu tinha poucos meses de atuação com tecnologia educacional, muitas ideais, muita produção e uma necessidade absurda de debater e compartilhar com meus pares. Foi no Grupo de Estudos que eu encontrei este espaço e as pessoas que tinham os mesmos anseios, dúvidas, medos, motivações, foi da minha troca com este grupo de pessoas incríveis que nasceram grande parte dos meus projetos. No Grupo de Estudos todo mundo tem voz, desde a pessoa que está começando a trilhar seu caminho no mundo da cultura digital até às que têm mais experiência. Essa troca é muito rica, motivadora e realmente muda as pessoas em relação ao seu trabalho, em relação ao entendimento do que é ser professor em tempos de cultura digital. Atualmente eu faço parte da equipe, sou a mediadora de redes sociais e considero uma honra enorme fazer parte de um projeto tão incrível como este. Convido a todos para conhecerem e participarem!

Reprodução: Utilizando Mídias na Educação

Entrevista REA

Olá pessoal! Compartilho aqui a entrevista que dei ao blog REA. Vocês estão trabalhando nesta perspectiva? Quem gostaria de trocar figurinhas comigo? Comentários e sugestões são sempre bem-vindos.

Quando e como descobriu REA?

Descobri os Recursos Educacionais Abertos em 2007, quando iniciei meu mestrado na área de Tecnologia Educacional. Na verdade, tratava-se de objetos de aprendizagem (hoje sei que não é a mesma coisa) e na época ninguém estava tão preocupado com licenças e remixagem, mas sim com formatos e distribuição de materiais que pudessem ser usados pelo maior número possível de educadores. Naquele contexto, a criação estava focada nas universidades que recebiam verbas para este fim, mas nós já éramos estimulados a criar recursos e distribuí-los pela internet. O grande problema na época é que cada repositório usava um formato diferente e esta discussão estava “em alta”. O foco era a reutilização e faltava incentivo para a produção.

Comecei a trabalhar na escola com Tecnologia Educacional em 2010 e foi então que comecei a fazer um estudo mais profundo sobre REA. Em princípio, incomodava-me o fato de os alunos acharem que os conteúdos disponíveis na internet não tinham “dono” e que os professores utilizavam materiais de busca na internet sem citar as fontes. É como se no imaginário coletivo fontes fossem somente a dos livros e o material digital como imagens, vídeos e animações não estivesse inserido nesta premissa.

A discussão sobre REA se abriu com intensidade pra mim quando comecei a participar do Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital (projeto do Programa Educarede Brasil, iniciativa da Fundação Telefônica em parceria com a Organização dos Estados Iberoamericanos com execução do Instituto EducaDigital). Ali havia outros educadores tão cheios de dúvidas quanto eu e era possível estabelecer uma discussão e reflexão coletiva para ampliar os horizontes. Por meio do Grupo de Estudos descobri o blog “rea.net”, que na minha opinião, é um espaço importante para sanar dúvidas e acompanhar iniciativas interessantes.

Que experiências/projetos/ideias desenvolveu?

Comecei a usar REA quando criei um projeto diferenciado de uso de tecnologia focado no protagonismo com os alunos de 4 a 10 anos do período integral opcional do colégio em que trabalho. Fazia questão também de expor e refletir com eles sobre os materiais que usávamos e assim, desde muito pequenos, eles internalizavam conceitos importantes como autoria e o compartilhamento da cultura. Começamos como usuários e gradativamente estamos nos tornando autores, publicando nossos trabalhos criativos no nosso blog de trabalho. Por aqui, trabalhamos muito com games, fotografia e vídeos.

Aos poucos comecei a estender esses conceitos importantes para os alunos do ensino fundamental II e ensino médio em projetos que os professores denominam “avaliação diferenciada”. Foi a brecha que encontrei para discutir com eles a questão dos recursos educacionais abertos. Nós simplesmente construímos o assunto durante a execução dos trabalhos. Eu tento ajudá-los a redirecionar a pesquisa incentivando-os a usar REA e também a produzir, fortalecendo assim essa troca importante de experiências educativas.

Depois de muita pesquisa, leitura e troca com educadores de todos os cantos do país, principalmente por meio do Twitter e Facebook, em julho/2011, ofereci a 1ª oficina do colégio que abordava o tema Recursos Educacionais Abertos para todos os professores. A adesão foi opcional e o número de participantes foi pequeno, mas entre eles, estavam 90% dos coordenadores de área, fato que achei relevante para que a informação comece a circular e ganhar força. Novas intervenções estão previstas para este ano ainda.

Também mantenho um blog onde escrevo e divulgo informações basicamente sobre educação e cultura digital e resolvi colocar nele e em todo material de minha produção o selo do Creative Commons, permitindo que qualquer pessoa que se interesse pelos temas que produzo reutilize, distribua e remixe estes materiais.

Pra você, o que é REA

Tenho estudado tanto sobre REA que é inevitável que me venha à cabeça uma definição quase que decorada! REA são materiais educacionais que podem ser utilizados, alterados, remixados e compartilhados livremente. Entretanto, com minhas palavras, REA significa a possibilidade de aceder e compartilhar o conhecimento livremente, é uma verdadeira quebra de paradigma, a possibilidade de partir da situação de receptor (ainda que esta possibilidade exista) que reinou na educação por tanto tempo, e se tornar autor e protagonista da aprendizagem individual e coletiva.

É uma possibilidade incrível de criação colaborativa dentro do nosso próprio contexto e de libertação de sistemas pré-determinados, como seguir apostilas e/ou cartilhas, afinal, nem sempre estes materiais fechadinhos contemplam as regionalidades e os objetivos que gostaríamos de alcançar.

O que espera como próximos passos dos REA no Brasil?

Eu sinto que existe uma carência muito grande de materiais em língua portuguesa. Acredito que seria necessária alguma estratégia para que a filosofia REA chegasse às escolas de fato e esta ideia fosse multiplicada e integrada. A história conta que estas iniciativas deram certo enquanto existia financiamento e quando o dinheiro acabou os projetos não tiveram continuidade.

No âmbito das escolas, acredito que o 1º passo seria ter uma frente de capacitadores/dinamizadores. Abordagens online e a distância também seriam bem-vindas, não somente com o uso de plataformas EAD como o Moodle, mas também em redes abertas e mais dinâmicas com a criação de grupos no Facebook, tag permanente no Twitter. A própria comunidade REA poderia contribuir realizando Twitcams com periodicidade. Essas são apenas algumas possibilidades que me vêm à cabeça.

No âmbito dos governos, seria um passo importante, por exemplo, ter projetos semelhantes ao Projeto Folhas do estado do Paraná. Tornar ou dar oportunidade para que professores e alunos se tornem autores e usem formatos abertos depende de mudanças na estrutura, e sabemos que a escola é uma instituição que resiste às mudanças e muitas vezes, teme o novo.

Outra questão seria definir e divulgar em massa um local onde esses materiais poderiam ser encontrados e/ou compartilhados pelos professores e alunos de escolas públicas e privadas.

O que diria para educadores que desejam começar a trabalhar por e com REA

O que posso dizer é que se você é educador, tem interesse e/ou conhece um pouco sobre REA, participe das comunidades e/ou grupos, procure ampliar os horizontes, discuta, reflita com seus pares e não deixe de levar a ideia adiante na sua instituição. Dificilmente os professores da sua escola vão descobrir os recursos educacionais abertos sozinhos, é preciso que todos sejamos co-responsáveis por disseminar esta ideia.

Débora Sebriam é educadora, integrante da equipe de Tecnologia Educacional do Centro Educacional Pioneiro, mediadora de redes sociais do Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital e Instituto EducaDigital.

PNBL deveria focar mais do que infraestrutura

Em entrevista divulgada no Guia das Cidades Digitais, mais uma vez, reitero minha opinião sobre a necessidade de uma ação para disseminar a ideia dos cuidados básicos que devemos ter ao navegar na internet.

Reproduzo abaixo a matéria e de antemão gostaria de saber a opinião de vocês sobre o tema, se concordam ou não comigo, o que acrescentariam a uma proposta deste tipo e por aí vai.

Debora Sebriam, educadora e mestre em Engenharia de Mídias para a Educação, acredita que o fomento ao uso da internet no Brasil deveria ir além do barateamento de custos de acesso. Para ela, é essencial incentivar um uso criativo e seguro da rede mundial de computadores

O Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) finalmente começou a sair do papel. O foco do programa e da maioria das críticas a ele direcionado é a conexão. Muito se fala de custos e formas de acesso, mas pouco se discute sobre como a população recém-chegada à rede mundial de computadores a usará. Para a educadora Debora Sebriam, mestre em Engenharia de Mídias para a Educação pela Universidade Técnica de Lisboa, pela Universidade Poitiers (França) e pela Universidade de Educação a Distância da Espanha, a falta de uma vertente educativa é o grande problema.

Nesta entrevista ao Guia das Cidades Digitais, Debora Sebriam explica seus argumentos e alerta para a necessidade de uma campanha pelo uso criativo e seguro da internet no país. Longe de querer controlar a utilização da rede, ela acredita que o uso básico da internet pode ser alcançado de maneira quase intuitiva. O problema seria como ir além da simplicidade sem cair em golpes, expôr-se em excesso ao mesmo tempo em que não haja censura na rede.

Segundo a educadora, que hoje trabalha no Centro Educacional Pioneiro e no Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital realizando a gestão de Redes Sociais, a adoção de práticas polêmicas, como o download de arquivos e seu compartilhamento, deve ser incentivada, pois faz parte da nova forma de educar da atualidade.

Guia das Cidades Digitais – Em um recente evento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), você fez críticas ao PNBL. Poderia expô-las novamente?

Debora Sebriam – Na verdade, um dos focos do evento foi a educação, e a minha crítica é que informações sobre segurança, comportamento e ética são temas não privilegiados se pensarmos na divulgação de larga escala. Qualquer pessoa é capaz de aprender a “navegar” por estes novos mares sozinha, aos poucos as pessoas vão se apropriando de ferramentas que fomentam a comunicação, a colaboração e o compartilhamento de informação e conhecimento.

Entretanto, existem muitas lacunas que nem sempre são possíveis de serem preenchidas pela simples curiosidade do usuário, e não é à toa que vemos um cenário de superexposição das pessoas, principalmente nas redes sociais, e de golpes cada vez mais frequentes envolvendo roubos de dados, por exemplo. Acredito que seria interessante adicionar ao PNBL, além do acesso à internet, campanhas de âmbito nacional que levem informações concretas à população sobre crimes digitais, pedofilia, os limites da exposição e outros temas de interesse.

GCD – Você defende o uso ético das mídias digitais. Como ele pode ser ensinado e garantido?

Débora – O primeiro ponto seria desmistificar que existe uma vida online “anônima”, separada da vida “real”. A nossa imagem é a mesma “dentro” das mídias sociais ou fora delas e tudo o que fizermos online será considerado parte de nossas ações. Portanto, o respeito, a solidariedade e a ética valem para todos os meios de convivência a que somos expostos, inclusive o online. O que temos até o momento são cartilhas impressas e online e alguns vídeos informativos direcionados muitas vezes a crianças, mas nem isso chega de fato a todas as escolas do país, quanto mais a toda população. Acredito que o melhor meio seria o que atinge o maior número de pessoas e, neste caso, a televisão seria uma opção, e, é claro, as redes sociais, que absorvem um número cada vez maior de pessoas em nosso país.

GCD – Há diversas tentativas de se regular o uso da internet no Brasil por meio de leis. É uma boa maneira de se evitar crimes e infrações?

Débora – Quem comete os crimes parece estar sempre um passo à frente, portanto, aceitar leis que criem o vigilantismo sobre o usuário comum, guardando seus dados de navegação e identificação, seria na verdade mais um motivo de preocupação. Outro ponto é criminalizar práticas que se tornaram comuns conforme fomos avançando na cibercultura, como a digitalização de músicas, o desbloqueio de celular, o compartilhamento de outro tipos de arquivos, que na verdade favorecem o acesso à cultura livre e também faz com que o autor alcance um maior número de pessoas. Ao invés de tentar coibir algo que se tornou cultural e nadar contra a maré, não seria mais viável pensar em alternativas criativas, como a adoção de licenças flexíveis? Acredito que vivemos novos tempos, estamos no meio de um furacão de mudanças que envolvem a maneira como compramos, nos relacionamos, nos comunicamos. Um momento delicado como este merece aprendizagem e discussão coletiva e não proibições e criminalização.

GCD – Em muitos casos, as campanhas educativas utilizam termos próprios de usuários avançados. Qual seria a melhor maneira de se falar para a população em geral?

Débora – Temos aqui uma grande oportunidade de unir forças entre universidades, empresas ligadas a publicidade e marketing, educadores do ensino básico, advogados e outros profissionais para discutir a melhor maneira de se passar uma mensagem que seja objetiva, tenha alcance e que seja compreensível a todos.

GCD – De quem é esse papel de educador? Do Estado? Das principais companhias de internet?

Débora – Não temos mais como distribuir funções como nas fábricas de antigamente, seria interessante começarmos a pensar como “sociedade”, fazer uma chamada pública e convidar todos que tenham interesse para contribuir. Sem dúvida, acredito que a escola é um local privilegiado para se trabalhar com o tema, além de ter professores e alunos como público, pode-se ampliar as ações para os pais e/ou comunidades a que as escolas fazem parte. Neste contexto, todos teriam responsabilidades, escolas públicas e particulares. Em outros contextos, as grandes empresas de comunicação e companhias de internet poderiam contribuir cedendo espaço para divulgação e disseminação de materiais da campanha.

GCD – Como evitar que essa educação se torne doutrinária e cerceadora da livre expressão?

Débora – Uma das grandes características da web que conhecemos hoje é o poder do usuário sobre o conteúdo construído. Todos podem e têm espaço para deixar seu recado. O direito à liberdade de expressão e dos processos de criação deve ser mantido em todas as circunstâncias e este direito deve ser usado com responsabilidade e respeito sempre. Qualquer possibilidade de coibir o avanço da cibercultura seria um retrocesso.

GCD – Você destaca, em suas falas e artigos, a necessidade de utilizar as TICs [Tecnologias da Informação e Comunicação] para criar. Há exemplos positivos neste sentido?

Débora – As TICs definitivamente revolucionaram o processo de criação. Vemos artistas independentes que usam todo o poder da web para divulgar seus trabalhos e ganham fãs e reconhecimento pelo seu talento. No caso da escola, os computadores e outros equipamentos como lousas eletrônicas e tablets mudaram em parte a dinâmica das salas de aulas e proporcionaram momentos de criação que deixaram de ser unilaterais para serem coletivos. Agora estamos na busca de um novo patamar. Do que adianta ter equipamentos avançados que possibilitam a criação e a reflexão coletiva se não mudamos a metodologia? Estamos em busca de um novo jeito de fazer educação. Não será fácil, mas não existe outro caminho.

Fonte: Guia das Cidades Digitais

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